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Aprendendo a me aventurar na vida

Foto do escritor: Maria Fernanda Kallut Binnios
Maria Fernanda Kallut Binnios
6 de ago.
8 min de leitura

Sobre medo, liberdade e a decisão de criar este blog mesmo sem ter todas as respostas.


Eu nunca teria criado este blog!


Pelo menos, não a versão de mim que passou tanto tempo deixando de viver algumas experiências por medo. Medo de não ser capaz, de fazer alguma coisa errada e, principalmente, do que as pessoas poderiam pensar.


Aquela versão provavelmente teria uma lista enorme de motivos para adiar. Talvez esperasse escrever melhor, ter mais histórias, encontrar o tema perfeito ou simplesmente se sentir pronta. E eu não sei se esse momento de se sentir completamente pronta chegaria algum dia.


A verdade é que também não tenho uma resposta clara para explicar por que decidi começar agora. Talvez essa seja justamente uma das razões. Não estou abrindo este espaço porque finalmente entendi tudo sobre mim ou porque cheguei a algum lugar do qual posso oferecer respostas prontas.


Estou criando este blog porque ainda estou no meio do caminho.


Quero compartilhar um pouco do que tenho vivido com quem estiver disposto a ouvir.


Algumas vezes vai ser uma história. Em outras, um pensamento que apareceu no meio do dia e decidiu não ir embora. Também vão surgir viagens, encontros, eventos, perrengues e descobertas que talvez pareçam pequenas quando acontecem, mas ganham outro significado quando são colocadas no papel.


Não sei exatamente o que este blog vai se tornar. Por enquanto, sei apenas que quero começar.


Antes de me permitir


Durante dois anos, trabalhei em um shopping. Era uma rotina que me consumia e, quando penso naquela época, lembro da sensação de estar presa a uma vida que exigia muito de mim. Eu seguia fazendo o que precisava ser feito, como tantas pessoas fazem, mas não conseguia enxergar com clareza o que poderia existir além daquilo.



Ao mesmo tempo, havia a possibilidade de trabalhar com meu pai na empresa dele.


Olhando de fora, talvez parecesse uma decisão óbvia: sair de um trabalho do qual eu não gostava para aceitar uma oportunidade dentro da minha própria família.


Só que as decisões nunca são tão simples quando envolvem relações e sentimentos.


Naquele momento, eu e meu pai estávamos distantes. Nossa relação não estava boa, e isso fez com que eu demorasse a considerar seriamente a mudança. A ideia de misturar a convivência profissional com uma relação que já estava difícil me deixava insegura. Então adiei.


Com o tempo, comecei a trabalhar essa questão dentro de mim. Aos poucos, percebi que poderia estar deixando uma boa oportunidade escapar. Mais do que trocar de emprego, eu precisava me perguntar se não estava permitindo que o medo decidisse por mim.


Aceitar trabalhar com meu pai foi uma das primeiras vezes em que me permiti tentar alguma coisa antes de ter garantia de que daria certo. Hoje consigo enxergar essa decisão como o início de muitas outras.


Isso não significa que a mudança tenha vindo acompanhada de uma coragem repentina. Eu conseguia perceber o que poderia ganhar com a oportunidade e, ainda assim, sentia o peso do distanciamento que existia entre nós. As duas coisas eram verdadeiras ao mesmo tempo.


Aceitar não exigiu que eu fingisse que a dificuldade não existia. Exigiu apenas que eu parasse de olhar para ela como a única parte da história.


A filha do chefe


Trabalhar com o próprio pai tem suas peculiaridades. A responsabilidade, para mim, parecia dobrada. Eu não era apenas uma profissional chegando para aprender uma nova função; eu também era a filha do chefe.


Essa frase pode até render uma risada quando é dita assim, mas o peso dela é real.



O vínculo familiar fazia com que cada responsabilidade parecesse ainda maior. Ao mesmo tempo, eu estava aprendendo a reconhecer a minha própria capacidade. Era fácil olhar para cada desafio e pensar primeiro no que poderia dar errado.


Só que o trabalho não esperava que todas as minhas inseguranças desaparecessem. As coisas aconteciam, os eventos precisavam ser produzidos, os problemas precisavam ser resolvidos e eu precisava estar presente.


Foi fazendo que comecei a perceber que conseguia fazer.


Parece simples quando escrevo assim, mas essa descoberta levou tempo. A capacidade nem sempre chega antes da oportunidade como uma certeza pronta. Às vezes, a oportunidade aparece primeiro e somos nós que precisamos crescer para ocupá-la.


Foi isso que comecei a viver ali.


Três anos depois


Hoje, estou há três anos trabalhando com produção de eventos. Gosto do meu trabalho e tenho a oportunidade de viajar por diferentes lugares do Brasil fazendo o que aprendi a fazer.


Cada evento tem a própria peculiaridade. Nenhum acontece exatamente da mesma forma, e sempre existe alguma coisa nova para resolver, compreender ou guardar como história. Os perrengues são vários, claro, mas eles merecem seus próprios textos.


Durante muito tempo, não parei para pensar no tamanho dessa mudança. A ficha não caiu em uma viagem específica ou em um momento cinematográfico no qual olhei ao redor e finalmente entendi tudo. Ela foi caindo ao longo dos anos.


Entre um evento e outro, uma cidade e outra, um desafio e outro, comecei a perceber o que estava vivendo.


Poder viajar pelo Brasil produzindo eventos e reconhecer que tenho capacidade para isso é extraordinário para mim. Não porque todo dia seja fácil ou porque a rotina tenha se transformado em uma sequência de cenas perfeitas. É extraordinário porque conheço a pessoa que eu era quando essa oportunidade apareceu.


Sei quantas vezes ela duvidava de si e quantas experiências deixava de viver antes mesmo de tentar.


As viagens para fora do país ainda não aconteceram, apesar de algumas oportunidades começarem a surgir. Quem sabe um dia? Gosto de pensar nesse espaço entre tudo o que já vivi e aquilo que ainda pode acontecer.


O desconhecido não precisa representar apenas ameaça. Ele também pode ser possibilidade.


O que também foi curado


Enquanto eu me descobria profissionalmente, a relação com meu pai também começou a mudar.


Não quero entrar nos motivos que haviam criado distância entre nós. Algumas partes da nossa história pertencem à nossa intimidade, e reconhecer que algo existiu não significa que tudo precise ser exposto.


O que importa aqui é que nós estávamos distantes e, ao longo desse processo, conseguimos nos entender melhor.


Trabalhar juntos não apagou o passado nem fez com que as coisas se resolvessem por mágica. Mas abriu espaço para convivência, conversas e uma compreensão que antes não existia da mesma forma. Enquanto aprendíamos a trabalhar lado a lado, eu também sentia uma ferida antiga sendo cuidada dentro de mim.


Essa talvez tenha sido uma das maiores surpresas daquela decisão. Eu achava que estava avaliando uma oportunidade profissional. Não imaginava que, junto com ela, viria a possibilidade de reconstruir uma relação tão importante.


Por isso, quando penso no que ganhei nesses três anos, não consigo separar completamente o crescimento profissional dessa transformação pessoal.


Ao descobrir que era capaz de assumir responsabilidades, viajar e produzir eventos, também descobri que era capaz de rever relações, estar mais vulnerável e permitir que uma experiência me transformasse para além do resultado que eu esperava.


Aprender a ficar aberta


Foi assim que comecei a aprender a me aventurar na vida.


Não necessariamente fazendo coisas grandiosas o tempo todo, mas me tornando mais aberta ao que chega. Antes, muitas experiências terminavam dentro da minha cabeça. Eu imaginava o que poderia dar errado, concluía que talvez não fosse capaz e me protegia dizendo não antes mesmo de descobrir o que aquela oportunidade poderia ser.


Quando aceitei trabalhar com meu pai, percebi que me permitir não significava deixar de ter medo. Significava não entregar ao medo a decisão final.


Essa diferença mudou muita coisa.


Quanto mais aberta eu ficava, mais vulnerável também me tornava. Só que foi justamente nessa vulnerabilidade que comecei a aprender mais sobre mim. Passei a reconhecer meus gostos com mais clareza, entender o que me anima, o que me desafia e também o que ultrapassa os meus limites.


Aprender a se aventurar não significa dizer sim para tudo. Para mim, significa conseguir escolher sem deixar que o medo fale sozinho.


Esse processo ainda está acontecendo. Não virei uma pessoa que nunca hesita ou aceita qualquer aventura sem pensar duas vezes. Continuo tendo medos e dúvidas. A diferença é que eles já não ocupam todo o espaço.


Agora existe curiosidade junto. Existe a pergunta sobre o que posso descobrir se me permitir tentar.


Este blog também é uma aventura


Criar este blog é uma dessas escolhas.


A minha versão de alguns anos atrás dificilmente teria aberto um espaço pessoal para publicar o que pensa e vive. Ela estaria preocupada demais com a opinião das pessoas.

Quem vai ler? O que vão pensar? Será que tenho alguma coisa importante para dizer? Será que escrevo bem o suficiente?


Talvez ela tentasse responder a todas essas perguntas antes de permitir que a primeira palavra aparecesse.


Minha versão de hoje ainda escuta essas perguntas, mas já sabe que elas não precisam decidir tudo. Percebi que a opinião dos outros não pode ser mais importante do que a possibilidade de fazer algo de que gosto.


Isso não significa que eu tenha parado de me importar ou que publicar não me deixe vulnerável. Significa apenas que decidi não me abandonar para evitar qualquer julgamento.


Escrever tem trazido clareza para a minha mente. Quando um pensamento fica apenas na cabeça, ele pode se misturar com muitos outros e parecer maior, menor ou mais confuso do que realmente é.


Ao escrever, consigo olhar para ele. Posso ler, reler, mudar uma palavra e perceber que talvez o que eu quisesse dizer fosse outra coisa.


Este próprio texto é um exemplo. Eu poderia dizer apenas que saí do shopping, comecei a trabalhar com meu pai e hoje produzo eventos pelo Brasil. Os fatos estariam corretos.

Mas, quando paro para escrever e reler essa sequência, percebo que existe uma história muito maior entre eles. Existe medo, distanciamento, oportunidade, trabalho, reconstrução, capacidade e liberdade.


É isso que espero encontrar aqui: não apenas um registro do que aconteceu, mas uma forma de entender o que as experiências estão construindo em mim.


O passado que não me prende


Se eu pudesse encontrar a minha versão de alguns anos atrás, não faria um discurso. Não diria que ela precisava ser mais corajosa, aproveitar melhor as oportunidades ou parar de ter medo.


Acho que não diria nada.


Apenas pegaria aquela versão pela mão e mostraria o potencial que ela tinha. O mesmo potencial que hoje finalmente consigo reconhecer.


Mostraria as viagens pelo Brasil, os eventos produzidos, os desafios enfrentados e a relação com o meu pai encontrando uma nova forma de existir. Mostraria também este blog, aberto apesar do medo da opinião alheia.


Não para provar que tudo deu certo ou que o caminho foi perfeito, mas para que ela entendesse que era capaz de ir além do limite que havia desenhado para si.


Tenho orgulho do meu passado. A pessoa que eu era fez o que conseguia com aquilo que sabia e sentia naquele momento.


Hoje percebo que esse passado não me prende mais. Pelo contrário: ele me mostra a liberdade que posso alcançar e continuar buscando.


Então, por que este blog?


Talvez eu ainda não tenha uma resposta curta.


Este blog existe porque quero compartilhar o que tenho vivido com quem estiver disposto a ouvir. Existe porque escrever me ajuda a encontrar clareza. Existe porque acredito na conexão entre quem conta uma história e quem encontra nela alguma coisa de si.


Mas ele também existe porque eu quis mostrar para mim mesma que o medo do julgamento não precisa continuar escolhendo por mim.


Abrir este espaço é uma forma de dizer sim para algo de que gosto, mesmo sem saber exatamente onde isso vai chegar. É uma nova oportunidade que decidi não jogar fora.

Este primeiro post não é uma apresentação completa. Eu não caberia em um único texto, e ainda bem. Ele é apenas a porta aberta de uma conversa que pode continuar.


Um jeito de dizer quem sou hoje: alguém que está aprendendo a se aventurar na vida, vivendo experiências únicas e verdadeiras e tentando fazer isso sem abrir mão da própria autoria.


Ainda sinto medo. Ainda não sei tudo o que vou escrever. Ainda não sei quem vai chegar até aqui ou o que este blog pode se tornar.


Mas, desta vez, essas perguntas não me impediram de começar.

E, por enquanto, começar já é uma aventura extraordinária.


Até o próximo texto!

Fernanda Kallut.




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